O dia de trânsito da Serafina Cubinho de Açúcar

A diabetes contada às crianças

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Começava mais um dia para a Serafina, um cubinho de açúcar muito branquinho que usava um grande laço cor-de-rosa na cabeça. Devia despachar-se, ainda tinha um longo caminho para percorrer até ao seu trabalho. Serafina vivia no país Corpo Humano, e trabalhava numa fábrica onde ajudava produzir a energia para as atividades do dia, como correr e brincar. Apesar da estrada vermelha que tinha que percorrer no seu carro, também cor-de-rosa, estar sempre muito calma, não queria chegar atrasada.  Devia despachar-se com o penteado e com o seu laçarote!

Pouco tempo depois de ter saído de casa, e já na estrada vermelha, Serafina começou a ver muitos carros parados. Como era possível? Estava um trânsito infernal! Todos os cubos de açúcar nos seus carros buzinavam e era cá um chinfrim!

Um grande cubo de açúcar com um grande bigode preto já tinha saído do carro e estava a por a mão por cima dos olhos para ver se via mais longe:

– “Mas o que é que se passa hoje?”  – perguntava, irritado, o cubo de açúcar com bigode.

– “Nenhum carro está a andar, se calhar houve algum acidente.” – respondeu outro condutor pondo a cabeça fora do vidro.

– “Ou então há obras.” – retorquiu outro cubo de açúcar que usava fato e gravata, e que há estava visivelmente impaciente.

Mas a verdade é que não paravam de chegar mais e mais carros, e a fila atrás do carro da Serafina começava a crescer, até ela já não conseguir ver o seu fim.

A situação só piorava… os carros começaram a bater uns contra os outros …já havia muitos acidentes, muitas discussões e alguns cubinhos de açúcar até se começaram a sentir mal.

A Serafina também estava a ficar cheia de calor. “Ai, este carro não tem ar condicionado, acho que vou derreter.” – pensou, aflita.

No meio da confusão, apareceu o Sr. Magalhães, o carteiro bonacheirão, que vinha em passo apressado no sentido contrário ao do trânsito, a falar e a animar todos cubos zangados e impacientes.

“Tenham calma, amigos. No centro de comando, lá em cima no cérebro, estão a tentar resolver esta confusão.”

– “Mas o que se passa, Sr. Magalhães?” – perguntou a Serafina – “São obras?”

– “Não, Serafina. O problema é que a dona Insulina não está!”

– Não está?” – gritaram surpreendidos, em conjunto, todos os cubinhos que estavam perto da Serafina.

– “Não, dizem que não saiu hoje de casa, que fica ali para os lados do Pâncreas, sabem? Se calhar mudou de país.”

A dona Insulina, uma senhora que se vestia sempre de azul, era a única que conseguia comandar os portões de entrada nas fábricas de energia. Sem ela estar a trabalhar, nenhum carro consegui sair da estrada vermelha. Estava explicado o motivo de toda aquela confusão!

– “E agora? Vamos ficar aqui para sempre? Com estes cubos todos não conseguimos voltar para trás.” – choramingou a Serafina.

– “Tem calma, Serafina. Aposto que no Centro de Comando estão a resolver tudo.” – tranquilizou-a o Sr. Magalhães.

De facto, no Centro de Comandos do Corpo Humano, o comandante Neurini e a sua equipa estavam muito atarefados a tentar resolver o problema.

– “Temos que pedir ajuda urgentemente!” – disse o comandante – “Vamos escrever já um telegrama para fora do Corpo Humano, para o estrangeiro.”

– “Eu trato disso, Chefe!” – respondeu um dos membros da equipa. “O que quer que escreva?”

– “Tem de ser rápido. Escreve só: urgente, diabetes.”

– “Diabetes?”

– “Sim, diabetes. D-I-A-B-E-T-E-S. É o nome de código que se dá quando não temos a dona Insulina a controlar o trânsito.”

– “Já está, Chefe! Foi enviado o nosso SOS. O que vão fazer no estrangeiro quando lerem o telegrama?”

– “Eu espero que enviem outra senhora que consiga fazer o mesmo trabalho que a Dona Insulina”. – respondeu, esperançado, o comandante Neurini.

E enviaram! Passado um tempo, chegou, num foguete muito esquisito que mais parecia uma caneta gigante, uma senhora muito parecida com a dona Insulina e que, surpresa, também se chamava Insulina. Também se vestia toda de azul (que gosto tão particular este, das Insulinas) e usava um lenço branco ao pescoço.

Mal chegou, começou logo o seu trabalho e num instante a estrada vermelha ficou a circular calmamente. Era mesmo muito competente! Na verdade, a Serafina acabou por chegar atrasada ao trabalho, mas o pior já tinha passado. E ela esperava que não se voltasse a repetir toda aquela confusão, tinha sido assustador!

No Centro de Comandos, todos estavam muito admirados com a competência da nova Senhora Insulina.

– “A nova senhora Insulina vai ficar sempre aqui, no Corpo Humano?” – perguntou um dos membros da equipa do Comandante Neurini.

– “Não, não vai ficar sempre aqui. A nova Senhora Insulina não mora aqui como nós. Ela vai embora e depois volta no seu foguete, algumas vezes durante o dia.”

– “Nas horas de maior trânsito?”

– “Exatamente, nas horas de maior trânsito! Não queremos mais cubinhos de açúcar presos em grandes filas, e acidentes, e discussões e a precisar de ajuda médica”.

Da antiga senhora Insulina nunca mais ninguém ouviu falar, mas a Nova Senhora Insulina bem…essa era amorosa e mais importante, fez com que nunca mais existisse um dia de trânsito e confusão para os cubinhos açúcar.

 

Por |2017-11-14T15:49:50+00:0014 de Novembro de 2017|Histórias para a hora de dormir|4 Comentários

Sobre o Autor:

Pai
O pai é a dicotomia perfeita entre o lado sério da gestão, da história e da política e o lado hilariante das histórias para dormir, das construções no chão e das brincadeiras no jardim.

4 Comments

  1. Maria Santos Silva 15 Novembro, 2017 em 19:12 - Responder

    Comovente !

    • Pai
      Pai 21 Novembro, 2017 em 11:33 - Responder

      Muito obrigado! É muito gratificante saber que as minhas pequenas histórias conseguem tocar os outros.

  2. Alexandra 20 Novembro, 2017 em 15:41 - Responder

    Adorei

    • Pai
      Pai 21 Novembro, 2017 em 11:34 - Responder

      Muito obrigado! Fico (ficamos) muito contentes. Continue a acompanhar-nos!

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