A paixoneta do Ovo Juvenal

A paixoneta do Ovo Juvenal 

Alergia alimentar contada às crianças

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O Juvenal era um ovo fanfarrão, e como era considerado o ovo mais bonito da aldeia, era também um bocado vaidoso. Gostava de se vangloriar e de dizer que era mais oval (e mais perfeito) do que os seus amigos. Dizia até que a palavra “oval” derivava da junção do seu nome: Ovo Juvenal. Ah, e mais! Dizia que Juvenal também queria dizer “jovem” e que por isso ele nunca ia ficar velho, nem com rugas como o avô.

Juvenal gostava de passear na aldeia e de se pavonear em frente a todas as ovo-meninas. Era um quebra-corações e todas suspiravam por ele!

Mas um dia, quem se apaixonou foi o Juvenal… apaixonou-se por uma boca, a boca Filomena que também passeava muito pela aldeia.

-“Uma boca? A sério? Onde é que já se viu um ovo apaixonado por uma boca!” – riu-se o Anacleto, um amigo do Juvenal.

– “Oh, sabes lá tu o que é estar apaixonado, Juvenal. Não me acredito nisso. Tu já tiveste tantas namoradas.” – dizia outro amigo.

Mas Juvenal estava mesmo apaixonado. Desta vez era a sério. A Filomena era a boca mais bonita que já tinha visto. Era muito vermelhinha (sem precisar cá de batom) e com lábios que pareciam ter sido desenhados por um pintor famoso.

Precisava de declarar o seu amor à Filomena o mais rápido que conseguisse, juntos iam ser um par perfeito. Improvável, mas perfeito. Iam ser o casal Ovo e Boca mais famoso do mundo (bem, se calhar também não tinha existido outro, mas isso não interessava).

Mas a boca Filomena não reagiu como o Juvenal estava à espera.

– “Que tolice Juvenal, vai embora. Não posso namorar contigo!”

O Juvenal ficou surpreendido, mas não se deixou entristecer. Não ia desistir de a conquistar.

No dia seguinte, o Juvenal preparou-se a sério. Deixou de lado a sua roupa habitual e vestiu uma bela camisa cheia de estrelas. Assim sim, era o ovo estrelado mais bonito de sempre e a Boca Filomena não ia resistir.

-“Ah, ah! Quando a Filomena olhar para mim, até vai ver estrelas!”- gracejou o Juvenal.

Mas, mais uma vez, não resultou. A Filomena voltou a resmungar que não queria namorar com ele.Por esta é que o Juvenal não contava, mas não ia desistir à segunda tentativa.

-“Bem, o que tenho a fazer é tentar perceber o que pode ter corrido mal” – disse o Juvenal para si mesmo. – “Se calhar não posso ser tão vaidoso, nem vestir estas camisas às estrelas. A Filomena pode gostar de visuais mais simples.”

E assim, no dia seguinte, depois do trabalho, o Juvenal tomou um banho bem quente, vestiu uma camisa branca e apressou-se a ir ter com a Filomena. Estava hoje um simples ovo cozido e de certeza que ia fazer a sua amada mudar de opinião.

Mas voltou a não resultar.

-“ Outra vez, Juvenal? Já te disse que não posso namorar contigo”- disse a Filomena.

O Juvenal estava a ficar triste, mas não se deu por vencido. O ovo mais perfeito da aldeia não ia baixar os braços.

– “Ora bem, o que é que correu mal desta vez? Pensa, Juvenal, pensa” – dizia o Juvenal enquanto batia com o dedo na sua cabeça. Mas não lhe ocorria nenhuma ideia. -“Já estou tão cansado hoje, não me consigo lembrar de nada que possa ter corrido mal. Espera! É isso! Eu fui ter com a Filomena depois do trabalho, já devia estar com um aspeto cansado, com o sobrolho carregado e duro. Amanhã tenho que ir ter com ela logo pela manhazinha.”

E assim foi, no dia seguinte mal acordou, saltou da cama, preparou-se e pôs-se ao caminho. Antes de sair de casa ainda se lembrou de por o seu novo perfume, um aroma muito doce que ia fazer as delicias da Filomena, de certeza. E assim, ainda com a moleza da manhã e docemente perfumado, estava um ovo mole irresistível.

Apesar de toda a confiança do Juvenal, a sua visita matinal à Boca Filomena voltou a não correr como o esperado. A Filomena mandou-o embora, tal como das outras vezes.

“Que grande chatice” – pensou o Juvenal – “Ainda não descobri de que tipo de ovo é que a Filomena gosta. Mas ela não vai resistir-me muito mais tempo! Eu sou o ovo mais perfeito que ela já viu!”

E dito isto, começou a magicar uma nova tentativa. Desistir não era para ele! E lá seguiu o seu caminho para o trabalho enquanto assobiava sem perder a sua pose e a sua confiança. Ao passar à porta do ginásio, teve uma ideia de génio.

– “É isto! Como é que não pensei nisto antes! A Filomena deve ser adepta de uma vida saudável e ativa, bem, como aliás todos devíamos ser. E eu se calhar fui interromper a sua hora de treino e ainda levei um perfume doce.” – disse o Juvenal para si mesmo – “Tens uma bela cabeça, Juvenal, mas às vezes não a usas muito bem”.

No dia seguinte, acordou novamente cedo e pôs mãos à obra, ou melhor, pés ao caminho. Desta vez, ia vestido com o seu fato de treino e ainda levava na mão um haltere e uma corda de saltar. Ia mostrar-lhe como era um belo ovo mexido.

“Juvenal, tu outra vez? Já te disse que não posso namorar contigo!”

“- Mas, Filomena, não queres vir saltar à corda?”

Mas ela já não o estava a ouvir, já tinha seguido o seu caminho.

-“Ainda não foi desta! Mas eu vou conseguir conquistar a Filomena. Estou tão apaixonado!”

E a próxima tentativa não podia esperar para o dia seguinte. Tinha que ser já naquele dia. Era sexta-feira, por isso, à noite o Juvenal ia vestir o seu fato preto, por de novo um perfume doce, uma flor feita de morango na lapela e convidar a Filomena para um jantar à luz das velas. Nenhuma boca ia resistir a um ovo vestido de mousse de chocolate.

Mas a Filomena resistiu!

– “Juvenal, eu não posso namorar com um ovo.”

– “Por eu estar vestido de mousse?”

– “Não, Juvenal. Não posso namorar contigo vestido de mousse, de ovo estrelado, de ovo mole, de ovo mexido…”

– “E se me vestir de maionese? Um belo fato branco e casamos já! Estou tão apaixonado!”

– “Também não, Juvenal. Eu não posso namorar contigo nem com ovo nenhum.”

-“Não gostas de ovos?”

– “Gosto, claro que gosto. Mas eu tenho alergia aos ovos. Por isso é que não posso namorar contigo.”

– “Alergia?” – perguntou o Juvenal espantado. Nunca tinha ouvido falar daquilo.

– “Sim, se nós namorássemos, e se eu te desse um beijinho, podia ficar muito doente.”

– “Doente?” – repetiu o Juvenal, enquanto arregalava os olhos.

– “Sim, doente. Podia começar a ficar muito vermelha, inchada, com pintas, até não conseguir respirar e desmaiar.”

De facto, uma alergia parecia uma coisa grave e o Juvenal, apesar de triste, percebeu o motivo da Filomena para não querer namorar com ele. Gostava muito dela Filomena e não queria que ela ficasse doente.

A verdade é que os dias passaram e a história da paixoneta do Ovo Juvenal até foi importante para todos os ovos saberem que existia alergia ao ovo. As dúvidas foram tantas que a Filomena lançou uma escola para ensinar mais sobre alergia alimentar e é lá que trabalha hoje, feliz. E o Juvenal, bem, ele lá continua, fanfarrão. Consta que agora anda embeiçado por uma elegante batata (que não é alérgica).

 

Por |2018-03-07T16:26:53+00:007 de Março de 2018|Alergia Alimentar, Histórias para a hora de dormir|7 Comentários

Sobre o Autor:

Pai
O pai é a dicotomia perfeita entre o lado sério da gestão, da história e da política e o lado hilariante das histórias para dormir, das construções no chão e das brincadeiras no jardim.

7 Comments

  1. Luís Alves 14 Março, 2018 em 14:57 - Responder

    Boa Tarde! Não tenho alergia alimentar, mas pela história em si e pela imaginação por detrás das várias “formas” do ovo estão de parabéns. Sou apologista de quando gostamos devemos dizer. Continuação de bom trabalho.

  2. Ana Rita Pires 16 Março, 2018 em 11:52 - Responder

    Maravilhoso, como sempre! 😀

  3. Paula Pinto 16 Março, 2018 em 19:04 - Responder

    Boa Tarde. Adorei este conto e vai ser um máximo lê-lo à minha pequenina. Já tinha gostado do Sr. Elísio, mas como cá em casa o ovo é que é o grande bandido fica ainda mais personalizado. Obrigada!

  4. Francisca Vaz 16 Março, 2018 em 21:53 - Responder

    Sou educadora de infância e tive hoje conhecimento do vosso projeto. Adorei!
    Estas histórias já vão fazer parte do repertório que tenho para os meus meninos. É incrível como fazem educação para a saúde de uma forma tão criativa.
    Bem-hajam!

  5. Diana Fonte 20 Março, 2018 em 13:08 - Responder

    Adorei!

  6. Ana Catarina Carvalho 23 Março, 2018 em 16:22 - Responder

    Gostei muito de ler a história e achei super criativas todas as diversas facetas do ovo.

    Fico à espera de contos para outras patologias!

  7. Luísa 20 Abril, 2018 em 8:35 - Responder

    Adorei!!!!!

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